Mas, se o prefeito não dá bola para o COMTUR, e daí? | Eduardo Mielke

Publicado em 05/07/2016

 

O perigo da autofagia e a oportunidade de cooperar para competir e seguir em frente. A pauta hoje é o vácuo institucional e a Política de Turismo no Município.

Se isso acontece na sua cidade,  a pergunta primordial é: Será que o turismo realmente faz parte dos planos do prefeito? Mesmo que sim, olhe os fatos mensuráveis do crescimento (ou não) do turismo. Vale lembrar que, justificar maus resultados com falta de recursos, agride-me o saber do jargão “falta de vontade política”. E vale ressaltar que ainda estamos no era do prefeitismo.

Na mesma proporção, é necessário entender também como se dão os desdobramentos do COMTUR. É importante deixar claro à sociedade e aos seus membros de que ele não é uma entidade executiva e, sim, deliberativa e/ou consultiva. Mesmo acontecendo com certa regularidade, não necessariamente as reuniões são produtivas. Procure ver se as ideias debatidas não morrem no momento da redação da Ata. Já vi muitas reuniões com faiscadas discussões e exorcizadas pautas, dando a impressão quase que real do “agora vai”. Pois é, quase. Ao final, as pessoas saem da sala da mesma forma que um torcedor sai do estádio após o apito final. Fluem-se endorfinas. “Mas, quem mesmo ficou responsável pelo quê? Alguém lembra?”

O próprio Executivo tem certa dificuldade em medir o impacto que, por exemplo, um evento tem na economia local. Sem saber muito com o que está lidando e sem informação, o Estado não acompanha as necessidades do dinâmico mercado turístico e está chegando atrasado. Perde e se perde como referência de turismo no município. Destinos famosos e já consolidados estão passando por isso, e sofrem com a disritmia estatal. E nessa penumbra sobra para as entidades.

O problema é que a falta da mão do Estado forte traz o vácuo institucional e abre brechas para que processos autofágicos entre empresários e entidades ocorram e se propaguem. Isso acontece com mais frequência do que se imagina. Sem rumo e, paradoxalmente, no ímpeto em fazer qualquer coisa pelo turismo municipal, ações pontuais são realizadas. Mesmo que sejam feitas com resultados positivos e com toda boa intenção do mundo, podem estar sendo interpretadas como uma tentativa de assumir o protagonismo deixado pelo “não dar bola”. Se não há um acordo prévio, torna-se comum ver divisões em vez de ajuda mútua. Disputas em vez da cooperação, chegando ao ponto de ir para o pessoal.

O fato de o Estado ser ausente não justifica a autofagia. E esse processo, aliás, acaba por fazer um favor. O Estado encontra nele a justificativa para o seu próprio distanciamento, à medida que essas disputas viram ruído e este vira vespeiro, em que ninguém quer colocar a mão. Em vez de buscar somente o prefeito ideal, priorize a articulação e um acordo ideal entre as entidades. É nessa base que se alicerça e se constrói um turismo municipal forte, até para pressionar o Executivo para que cumpra seu papel (mesmo que seja necessário dizer a ele o que isso significa). Se isso acontece na sua cidade, experimente mudar o foco.

 

*O professor Eduardo Mielke é doutor em Desenvolvimento Turístico na Espanha e há mais de 10 anos assessora parlamentares e gestores públicos em projetos de Turismo. Contato: eduardomielke@yahoo.com.br

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